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| O viajante solitário sobre um mar de nuvens (1818)- Carl Friederich |
A alguns dias terminei a leitura de um livro maravilhoso, um clássico, o chamada Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. Não esperava gostar desse livro, mas gostei e muito. Pra quem não sabe, esse livro foi publicado em 1774, e ficou para história como o romance que abriu a escola do Romantismo, e também pela onda de suicídios que causou na Europa na época de seu lançamento.
Quando terminei de ler, fiz um pequeno texto no meu Facebook, estava efervescente, queria compartilhar, conversar com alguém sobre o livro - é o que acontece quando gostamos muito de algo que acabamos de ver. Não esperava que o texto ficasse legal, e muito menos que ficasse tão grande quanto ficou, mas acabou que gostei do que escrevi, achei legal. E como é difícil escrever algo que preste, decidi colocar aqui no blog, até pra quem sabe, me encorajar a escrever resenhas de livros que eu leia!
Pois bem, aqui está o texto;
"Meu facebook que me perdoe, sei que ninguém quer saber, mas acabei de ler Os Sofrimentos do Joven Werther, e estou extasiada com tamanha obra literária; que obra sensível, que belas filosofias, que visão de mundo fascinante e que depressão profunda a que o protagonista entra sem volta. Tudo tão intensamente belo nesse livro, dramático, forte.
Além do talento maravilhoso do Goethe, de fazer um personagem com sentimentos tão genuínos e pessoais, e ao mesmo tempo universais de modo a fazer com que o leitor quase acredite na existência do próprio Werther como também se identifique com o protagonista.
Quando se estuda o Romantismo no colégio, sempre citam esse livro como um dos fundadores da escola na Alemanha. Quando dão um resumo, fala-se basicamente "ele se suicida no fim, por conta do seu amor não correspondido". Na época, encarei a escola (e esse livro, inclusive) como um bando de jovens mal resolvidos que escreviam livros de suicídio por alguma friendzone que tivessem levado na vida.
Erro meu, erro bruto - meu e do professor que quiser resumir esse livro da maneira citada. É um erro semelhante a dizer que "Dom Casmurro" é um livro sobre "um corno se lamentando".
É muito mais que isso. É sobre um jovem por si só, já depressivo. E não por fraqueza de espírito, ou por medo da vida ou da morte. Mas por tamanha reflexão e observação do mundo, encontra em tantas coisas motivo de sua lamentação. Qualquer um que tenha o mínimo de sensibilidade pode se identificar com os questionamentos do Joven Werther acerca da vida, da morte, do amor, da natureza, da humanidade, da sociedade, etc. É uma alma inquieta, angustiada.
Discordo de quem apoie o fato de que ele se mata por amor a Lotte. Ele se mata por pura e simples depressão. Que essa sim, foi engatilhada pelo amor impossível entre eles, graças a convenções sociais (porém, correspondido, diga-se de passagem), visto que a moça já estava noiva quando se conheceram.
Admirar o noivo, e futuramente marido de sua amada o faz sofrer. Querer tê-la para si o faz sofrer, não só por não ser possível, mas também por ele se ver desejando o mal daqueles que lhes são caros graças a esse amor. Dói admirar alguém que você quer odiar, e dói odiar alguém que faz quem você ama feliz. É o sofrimento mais puro do amor, a felicidade pela felicidade da pessoa amada, apesar desta não ser proporcionada por você. E é esse sentimento, de culpa, de auto-julgamento, de impossibilidade e o desespero em lidar com isso que o empurra em uma depressão que, ironicamente, acaba sendo o momento de maior paz do protagonista.
Acho interessante como é deixado claro pelo suicida que ele não quer cometer o ato com pressa. Quer cometê-lo em paz, com calma, tranquilidade. Tranquilidade para a própria morte, tranquilidade essa que ele não encontrou na sua vida. Ele quase que escolhe morrer. É a decisão mais perto de racional que ele toma em todo o romance.
Goethe coloca nesse personagem todos os costumes do apaixonado; olhar para um local e remeter a lembranças com a pessoa amada, uma roupa usada em um dia especial, a incontinência na vontade de rever a pessoa, as afinidades específicas que são julgadas como sendo só "meu e dela", um olhar ("Somos todos crianças! Que importância damos a um olhar!") que poderia não querer dizer nada, mas para os enamorados, diz - naturalmente, tudo isso com um exagero próprio do personagem, mas ainda assim, identificável pra quase todo leitor. Isso, acredito eu, fez, e ainda faz, com que tantos jovens da época da onda de suicídios se identificasse com o Werther, essa proximidade, essa facilidade com que podemos nos colocar na lugar dele.
Além disso, talvez pelo fato de ser um romance epistolar, o personagem tem uma veracidade arrebatadora. A história é completamente plausível, e a intensidade com que os sentimentos são expressos nas cartas só nos fazem acreditar que nada disso foi inventado, e sim vivido.
De modo geral, o romance é fantástico, intenso, bem escrito, com um personagem tão bom que chega a ser comum pela identificação universal e ao mesmo tempo único pela violência de seus sentimentos para com o próprio portador deles. Que surpresa agradável, e a quanto tempo eu não lia um livro tão bom."
Não editei nada dele pra colocar aqui, espero que gostem.
A pintura, coloquei pois, essa famosa cena veio exatamente à minha cabeça em um dos trechos do livro onde o Werther fala que estava contemplando uma paisagem do alto de uma colina, além de achar que expressa muito bem o sentimento de solidão e observação que o personagem nos passa, e o imenso precipício à sua frente, além de reforçar os citados anteriormente, faz uma ponte com a depressão profunda na qual o Joven Werther cai no decorrer do livro; ele sempre esteve na borda desse precipício, só precisou se jogar e encontrar o chão.
